O relatório do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) analisado pelo programa Fantástico indica reprovação de mais de 30% dos cursos de Medicina avaliados no país. Entre os 13 000 estudantes que não alcançaram 60% de acertos, questões classificadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) como de baixa dificuldade obtiveram altos índices de erro, acendendo alerta sobre a qualidade da formação.
Questões básicas, alto índice de erros
Três perguntas consideradas elementares pela banca do exame ilustram a dimensão do problema. A primeira, sobre classificação e manejo de dengue, descrevia um paciente de 34 anos com febre, dores e vômitos. A resposta correta apontava “Dengue grupo A” e recomendava hidratação parenteral, analgésico, antiemético, hemograma, contagem de plaquetas e antígeno NS1, além de observação até estabilização. Apesar da simplicidade, a maioria dos reprovados errou a alternativa.
Na segunda questão, o exame pedia o tratamento inicial para uma mulher de 65 anos com sintomas clássicos de doença de Parkinson. O protocolo exige o uso de levodopa associada a carbidopa, fármaco básico na prática clínica. Ainda assim, grande parte dos estudantes assinalou combinações incorretas ou medicamentos que não fazem parte da terapia de primeira linha.
A terceira pergunta abordava cefaleia relacionada à arterite temporal. O enunciado descrevia dor persistente, alterações visuais e perda de peso em paciente de 55 anos. A resposta adequada indicava cefaleia secundária por arterite temporal e solicitava velocidade de hemossedimentação como exame inicial. Também nesse item, o percentual de acertos ficou abaixo do esperado para formandos que já passaram por estágios e contato direto com pacientes.
Problemas estruturais nos cursos
Alunos de instituições mal avaliadas relataram, na reportagem, falta de hospital-escola, salas de prática superlotadas e professores lecionando disciplinas fora da própria especialidade. Procedimentos essenciais teriam sido executados poucas vezes durante toda a graduação. Em alguns casos, docentes apresentaram protocolos desatualizados ou incorretos em sala de aula.
Para o Inep, as perguntas destacadas representam conteúdo mínimo obrigatório. A discrepância entre essa exigência e o desempenho dos estudantes reforça a percepção de lacunas graves na formação médica. O presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) classificou a situação como “muito preocupante”, afirmando que profissionais com conhecimento insuficiente tendem a impactar diretamente a qualidade do atendimento prestado à população.
Imagem: Internet
Medidas anunciadas pelo Ministério da Educação
Com base nos resultados, o Ministério da Educação (MEC) informou que as faculdades com desempenho insatisfatório poderão sofrer punições graduais. Entre as possibilidades estão a proibição de abertura de novas vagas, a redução de vagas existentes e a abertura de processos administrativos para corrigir falhas pedagógicas e estruturais.
Em paralelo, o CFM apoia a criação do Profmed, exame obrigatório para obtenção de registro profissional após a formatura. O projeto aguarda análise no Senado. A entidade argumenta que a avaliação adicional funcionaria como filtro de segurança antes da entrada do recém-formado no mercado de trabalho.
Impacto na carreira e reputação
Estudantes ouvidos pela reportagem afirmaram que o fraco desempenho no Enamed não se limita às notas. A reputação institucional é vista como decisiva na seleção para residências médicas e vagas de emprego. “A gente quer falar com orgulho de onde veio”, comentou um entrevistado ao mencionar oportunidades perdidas por causa do selo negativo obtido pela faculdade.
Os resultados completos do Enamed, incluindo a lista de cursos avaliados e as estatísticas de desempenho, estão disponíveis no portal do g1, segundo o MEC. Enquanto isso, escolas, órgãos reguladores e futuros médicos acompanham as discussões sobre mudanças necessárias para elevar o padrão de ensino e devolver confiança à formação médica brasileira.





