Queda de patente da semaglutida impulsiona genéricos e pode dobrar mercado de canetas emagrecedoras

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A expiração da patente da semaglutida prevista para março marca o início de uma nova fase para o mercado brasileiro de canetas injetáveis usadas no controle de peso e diabetes. Analistas estimam que as vendas dos agonistas de GLP-1 — classe que inclui o Ozempic e o Wegovy — possam atingir R$ 20 bilhões em 2024, quase o dobro dos R$ 11 bilhões projetados para 2025. A abertura para a produção de versões genéricas e similares, com preços entre 30% e 50% inferiores aos atuais, é apontada como o principal motor desse crescimento.

Concorrência deve reduzir preços em até 50%

Com o término da proteção patentária, farmacêuticas nacionais intensificam pedidos de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Até o momento, há 11 solicitações para versões sintéticas de semaglutida e sete para liraglutida, princípio ativo de outros tratamentos injetáveis. No segmento biológico, a Anvisa analisa pedidos que combinam a semaglutida a insulina de ação ultralonga e mais duas propostas focadas em liraglutida e semaglutida isoladas.

Entre as companhias que já publicaram planos de investimento estão EMS, Eurofarma e Hypera. Para Nelson Mussolini, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), a liberação de genéricos deve intensificar a disputa por mercado: “A concorrência é o melhor instrumento para conter preços”, afirma.

Hoje, uma caixa de semaglutida ou tirzepatida varia de R$ 900 a R$ 3 000, valor considerado elevado para grande parte da população. Embora a chegada dos genéricos prometa cortes significativos, especialistas alertam que o tratamento provavelmente continuará concentrado nas classes de maior renda. Para o endocrinologista Bruno Geloneze, da Unicamp, “o impacto maior recairá sobre a margem de lucro das empresas, não sobre o acesso amplo”.

Pressão sobre SUS e planos de saúde

No Sistema Único de Saúde (SUS), a semaglutida não é atualmente oferecida para obesidade. Em 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) rejeitou a inclusão alegando impacto orçamentário estimado em R$ 7 bilhões em cinco anos. Os analistas Vinícius Strano e André Salles, que assinam o relatório da UBS BB Corretora, entendem que preços mais baixos podem reabrir o debate, embora reconheçam incertezas sobre o efeito nos gastos públicos.

Para ampliar o acesso na rede pública, o Ministério da Saúde apoia uma parceria entre EMS e Fiocruz destinada à transferência de tecnologia de produção. Além disso, a Anvisa decidiu acelerar a análise dos agonistas de GLP-1, medida contestada por representantes do setor que temem atrasos na avaliação de outras terapias.

Nos planos de saúde, a cobertura continua restrita após decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2025, que endureceu a inclusão de medicamentos fora do rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Essa limitação incentiva a judicialização: levantamento de uma empresa de inteligência jurídica identificou 445 processos entre 2023 e maio de 2025, dos quais 67% contra o SUS e 30% contra operadoras privadas. Mais da metade das liminares favoreceu os pacientes.

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Riscos sanitários e novas moléculas em estudo

O avanço dos injetáveis também traz preocupações. A comercialização de produtos manipulados ou falsificados motivou operações da Polícia Federal e levou a Anvisa a proibir a venda de formulações manipuladas de semaglutida e tirzepatida. Efeitos adversos fora das indicações aprovadas — diabetes tipo 2, obesidade e sobrepeso — incluem constipação severa, dor abdominal, prostração e deficiências nutricionais.

Em paralelo, a indústria prepara a chegada de compostos de nova geração. O retatrutide, da Eli Lilly, apresentou redução de peso próxima a 30% em estudos iniciais, superando os medicamentos hoje disponíveis. Para Mussolini, modelos de compartilhamento de risco podem facilitar a incorporação desses tratamentos tanto no SUS quanto na saúde suplementar. Esse formato exige critérios claros de elegibilidade, monitoramento clínico e programas de mudança de estilo de vida, elementos considerados essenciais para melhorar desfechos como infarto, insuficiência cardíaca e renal.

Perfil da obesidade reforça potencial de crescimento

Dados do World Obesity Atlas indicam que 68% dos brasileiros têm excesso de peso e 31% são obesos. Entre 2006 e 2023, a obesidade passou de 11,8% para 24,3% na população adulta, enquanto o sobrepeso avançou de 42,6% para 61,4%. Apesar da demanda latente, apenas 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos obesos utilizam agonistas de GLP-1 no país, contra 4,4% nos Estados Unidos entre pessoas com diabetes e sobrepeso.

Com a redução de preços prometida pelos genéricos, o índice de utilização tende a crescer, mas especialistas insistem que o sucesso terapêutico depende de equipes multidisciplinares e acompanhamento contínuo. Sem suporte nutricional e incentivo à atividade física, alertam, os ganhos podem ser modestos e pouco duradouros.

A aproximação do fim da patente da semaglutida, portanto, coloca o mercado brasileiro num ponto de inflexão: de um lado, a possibilidade de preços mais acessíveis e maior oferta; de outro, desafios regulatórios, financeiros e clínicos que determinarão até que ponto a promessa de democratização dessas terapias se concretizará.

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