O ciclone tropical Gezani avança sobre o centro e o sul de Moçambique nesta sexta-feira, depois de ter atravessado áreas costeiras de Madagáscar. A tempestade chega a um país ainda a recuperar de inundações históricas que mataram dezenas de pessoas e afetaram mais de 700 mil habitantes. Nesse cenário, o rádio volta a demonstrar relevância estratégica para avisos de emergência, coordenação de ajuda humanitária e prestação de serviços essenciais à população.
A importância do rádio em cenários de desastre
O Dia Internacional do Rádio, celebrado em 13 de fevereiro, coincidiu com a aproximação do ciclone e reforçou o papel do meio de comunicação em momentos críticos. Em mensagem gravada a pedido da ONU News, o presidente de Moçambique, Daniel Chapo, destacou que “a rádio forma, informa e capacita”, servindo como principal fonte de informação para comunidades que enfrentam cheias, ciclones e cortes de energia.
Estações comunitárias, como a Rádio Nhamatanda, transmitem alertas de prevenção, instruções de evacuação e orientações sobre pontos de apoio. Com sinal que alcança localidades sem cobertura de internet ou telefonia móvel, o serviço radiofônico torna-se ferramenta indispensável para salvar vidas. A data também assinala os 80 anos da Rádio das Nações Unidas, hoje ONU News, que veicula conteúdos em múltiplos idiomas por aparelhos portáteis, computadores e smartphones.
Resposta humanitária mobilizada com antecedência
Organizações internacionais e Governo moçambicano iniciaram ações de antecipação antes da chegada do ciclone. A coordenadora residente das Nações Unidas no país, Catherine Sozi, informou que o mecanismo “Aviso Prévio para Todos” foi acionado, permitindo desembolso antecipado de recursos do Fundo Central de Resposta a Emergências (CERF). Com isso, comités locais de gestão de riscos foram treinados para interpretar boletins meteorológicos e orientar moradores sobre rotas seguras.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) também reforçou o pré-posicionamento de suprimentos. Falando de Inhambane, o porta-voz Guy Taylor relatou “preocupação extrema” com o possível choque sobre regiões já fragilizadas pelas cheias recentes. A agência armazenou comprimidos para purificação de água, produtos químicos, medicamentos, material escolar e tendas de alto desempenho, que podem funcionar como salas de aula temporárias ou clínicas móveis.
Apesar dos recursos já em campo, Taylor alertou que serão necessários fundos adicionais para cobrir demandas de abrigo, saúde e saneamento. O apelo foi direcionado a doadores internacionais, com o argumento de que as populações afetadas “estão extremamente vulneráveis” após sucessivos eventos climáticos.
Impacto esperado e desafios logísticos
Previsões indicam ventos fortes, chuvas intensas e risco de transbordamento de rios nas províncias de Sofala, Inhambane e Gaza. Estradas danificadas pelas cheias anteriores podem dificultar a entrega de ajuda, tornando a comunicação via rádio ainda mais crucial para mapear zonas de acesso e atualizar rotas de socorro.
As ondas radiofônicas também conectam equipas de busca e resgate, serviços médicos e abrigos temporários, reduzindo o tempo de resposta. Segundo especialistas em gestão de desastres, cada hora de antecedência proporcionada por alertas consistentes pode representar redução significativa em perdas humanas e materiais.
Imagem: ilustrativa
Cenário climático e necessidade de resiliência
Moçambique figura entre os países mais expostos a eventos extremos agravados pelas mudanças climáticas. A frequência de ciclones no canal de Moçambique tem aumentado, pressionando infraestruturas e recursos públicos. Para Catherine Sozi, sistemas de aviso prévio “não são luxo técnico, mas imperativo de desenvolvimento”, pois protegem vidas, meios de subsistência e investimentos já realizados.
Nos distritos costeiros, redes de rádio comunitária operam a energia solar ou com geradores, garantindo continuidade durante apagões. Experiências recentes mostram que a combinação de boletins meteorológicos, liderança local e envolvimento de voluntários fortalece a resiliência. Contudo, especialistas sublinham que o sucesso depende de financiamento estável, manutenção de equipamentos e formação constante de locutores e técnicos.
O papel dos doadores e da cooperação internacional
Em reuniões com autoridades nacionais, agências da ONU reiteraram pedidos para acelerar desembolsos de fundos de recuperação e adaptação climática. A prioridade imediata é enfrentar a chegada de Gezani, mas planos de médio prazo incluem reconstrução de escolas, centros de saúde e habitações em zonas menos suscetíveis a cheias.
A resiliência comunitária passa ainda por ampliar a cobertura de rádios locais, modernizar estúdios e treinar equipas para produção de conteúdo multilingue. Segundo Daniel Chapo, “a informação adequada no momento certo” continua a ser “a primeira linha de defesa” para milhões de moçambicanos.
Com o ciclone Gezani já a provocar chuvas e rajadas em partes do território, o desafio imediato é assegurar que mensagens de alerta cheguem a todos os distritos em risco. Enquanto isso, agências humanitárias mantêm equipas de campo em prontidão, apoiadas pela cobertura radiofônica que conecta comunidades, autoridades e parceiros internacionais numa rede de socorro coordenada.






