Taiwan fecha acordo e quer liderar cadeia de chips ‘democrática’ com os EUA

O governo de Taiwan anunciou a intenção de estabelecer, em parceria com os Estados Unidos, uma cadeia de suprimentos de alta tecnologia descrita como “democrática”. A meta foi apresentada pelo vice-primeiro-ministro Cheng Li-chiun após a assinatura de um novo acordo tarifário com Washington, concluído na semana passada. O entendimento prevê incentivos para que fabricantes de semicondutores ampliem operações em solo norte-americano e reforça a cooperação em inteligência artificial (IA).

Investimentos bilionários e redução de tarifas

Segundo as condições divulgadas, empresas taiwanesas investirão 250 mil milhões de dólares em microprocessadores, infraestruturas de energia elétrica e projetos de IA nos Estados Unidos. Paralelamente, Taipé assegurou um crédito adicional de igual valor para facilitar novas aplicações desse capital. O acordo estabelece ainda a redução das tarifas médias aplicadas à maioria das exportações taiwanesas para o mercado norte-americano, que passarão de 20 % para 15 %.

Para o setor de semicondutores, o documento cria benefícios específicos. Fabricantes como a TSMC que expandirem a produção nos EUA poderão importar chips, equipamentos e materiais sem tarifas extras, dentro de limites definidos. O objetivo é impulsionar a capacidade de processamento de IA no território norte-americano, uma das prioridades da administração de Donald Trump, que havia pressionado empresas do país asiático a realizar investimentos diretos na economia dos Estados Unidos.

Condições de cota e salvaguardas futuras

Os produtores que ampliarem fábricas em solo norte-americano poderão importar até 2,5 vezes a nova capacidade instalada em semicondutores e wafers de silício sem pagar tarifas adicionais durante o período de construção aprovado. Caso excedam essa quota, os itens continuarão sujeitos a um regime preferencial em relação a outros fornecedores estrangeiros.

Cheng Li-chiun destacou que o tratado garante a Taiwan tratamento antecipado em qualquer eventual medida da Seção 232 contra importações consideradas sensíveis à segurança nacional dos EUA. Em declarações recentes, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, mencionou a possibilidade de uma tarifa de 100 % sobre semicondutores fabricados fora do país caso as empresas optem por não instalar fábricas locais. De acordo com Cheng, mesmo num cenário de tarifa máxima, Taiwan contaria com isenção total dentro da quota e com tarifas reduzidas fora dela.

Objetivos estratégicos e alcance internacional

O vice-primeiro-ministro rejeitou a interpretação de que o acordo possa enfraquecer a indústria de chips sediada na ilha, frequentemente descrita como a “montanha sagrada” que sustenta a economia local. Para a autoridade, a iniciativa representa uma estratégia de expansão internacional, na qual as companhias taiwanesas ampliam a presença externa sem transferir o núcleo produtivo para fora do território.

Cheng definiu o plano conjunto como um passo para que “Taiwan e Estados Unidos possam liderar” a criação de uma cadeia de suprimentos de alta tecnologia voltada para economias democráticas, especialmente em áreas impulsionadas pela IA. A parceria reforça também a relação de defesa entre os dois países: embora Washington não mantenha laços diplomáticos formais com Taipé, continua a ser o principal fornecedor de armamentos da ilha.

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Imagem: Internet

A China continental, que considera Taiwan parte do seu território e não descarta o uso da força para uni-la ao regime de Pequim, observa de perto os movimentos que envolvem investimento estrangeiro no setor de semicondutores. A consolidação de uma cadeia “democrática” sob liderança taiwanesa e norte-americana pode redefinir rotas de abastecimento globais e reduzir a dependência de centros produtivos localizados em regiões sujeitas a tensões políticas.

O acordo tarifário permite, ainda, isenção total ou parcial de impostos sobre equipamentos específicos de produção de semicondutores, facilitando a transferência de tecnologia necessária para novas fábricas nos EUA. Ao mesmo tempo, atende à estratégia norte-americana de repatriar etapas críticas da fabricação de chips e reduzir riscos de interrupção em cadeias vitais para a economia digital.

Com os incentivos garantidos, fabricantes taiwaneses deverão definir cronogramas de construção, capacidades de produção e listas de equipamentos elegíveis para isenção. O governo de Taiwan, por sua vez, acompanhará o cumprimento das metas de investimento e a aplicação dos créditos adicionais, mantendo diálogo regular com autoridades norte-americanas para ajustar parâmetros de quota e regras de importação.

Para Taipé, a parceria estratégica nas áreas de semicondutores e inteligência artificial consolida a posição da ilha como fornecedora essencial de tecnologia avançada, ao mesmo tempo em que diversifica os mercados atendidos e fortalece vínculos políticos com Washington. Observadores da indústria apontam que o sucesso do acordo dependerá da rapidez na implantação de fábricas, da disponibilidade de mão de obra qualificada e da capacidade de ambas as partes em gerir eventuais disputas comerciais ou pressões geopolíticas.

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