Tempo de espera por transplante de córnea dobra no Brasil e já passa de um ano

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O intervalo médio até a realização de um transplante de córnea no Brasil aumentou 114% em dez anos, revelam dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) obtidos no Sistema Nacional de Transplantes (SNT). Em 2015, o paciente aguardava cerca de 174 dias; em 2024, a espera subiu para 374 dias, permanecendo em 369 dias nos primeiros seis meses de 2025.

Fila nacional reúne 31 mil pessoas

Até julho de 2025, 31.240 pessoas figuravam na lista de espera por um enxerto de córnea no país. O estado de São Paulo concentrava 6.617 pacientes (21% do total), seguido por Rio de Janeiro (5.141) e Minas Gerais (4.346). A fila mostra predominância feminina: 55,7% dos inscritos são mulheres. Quase metade (49%) tem 65 anos ou mais, reflexo do envelhecimento populacional e da maior incidência de doenças degenerativas na córnea.

Faixas etárias mais jovens também aparecem na estatística. Pacientes entre 18 e 34 anos representam 17% da demanda, boa parte deles diagnosticados com ceratocone, deformação que compromete gradualmente a visão. Há ainda 458 crianças e adolescentes aguardando o procedimento.

Distribuição por estados

De 2015 a julho de 2025, o Brasil realizou 150.376 transplantes de córnea. São Paulo liderou, com 52.913 cirurgias, seguido por Ceará (10.706), Minas Gerais (10.397), Paraná (9.726), Rio Grande do Sul (6.895) e Goiás (6.533). Acre (212), Tocantins (451) e Alagoas (866) registraram os números mais baixos.

O tempo de espera varia amplamente conforme a localização. Em 2024, Rio de Janeiro registrou a maior demora, com 1.424 dias, acompanhado de Acre (1.065), Alagoas (1.064) e Rio Grande do Norte (1.072). No lado oposto, Ceará apresentou tempo médio de 58 dias; Santa Catarina, 164; Mato Grosso, 227; Amazonas, 243; São Paulo, 247; e Paraná, 256 dias.

Causas para o aumento da espera

Especialistas apontam múltiplos fatores para explicar a expansão da fila. A suspensão de transplantes eletivos durante a pandemia de Covid-19 teve impacto direto: em 2020, as cirurgias foram interrompidas por cerca de seis meses para liberar leitos, provocando acúmulo de casos.

A disponibilidade limitada de córneas é outro ponto crítico. Segundo Aline Moriyama, coordenadora do comité de banco de olhos da Sociedade Brasileira de Córnea (SBC), muitas famílias recusam a doação por desconhecimento ou falta de diálogo prévio com o potencial doador. A médica destaca que a remoção não deixa cicatriz visível e pode ocorrer até 12 horas após a morte cardiorrespiratória, mesmo quando outros órgãos não são doados.

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Imagem: Internet

No âmbito financeiro, o repasse do Sistema Único de Saúde (SUS) para os bancos de olhos permanece sem reajuste significativo há mais de uma década. O custo de materiais e exames, entretanto, subiu com novas exigências sanitárias e tecnológicas. Em maio de 2025, o SNT reajustou valores para dois itens essenciais — líquido de preservação da córnea e sorologia —, mas entidades do setor consideram a medida insuficiente para equilibrar despesas.

Medidas em discussão

Para reduzir a fila, organizações médicas defendem três frentes: atualização completa da tabela de repasses do SUS, ampliação de campanhas públicas de conscientização e políticas que facilitem a identificação de potenciais doadores nos hospitais. Mesmo com o aumento pontual anunciado pelo Ministério da Saúde, representantes de bancos de olhos avaliam que a diferença entre custo real e verba recebida permanece elevada.

A sensibilização da população sobre a doação de córneas é considerada estratégica porque o tecido pode ser retirado mesmo quando há contraindicação para doação de outros órgãos. A SBC enfatiza que uma única doação pode beneficiar duas pessoas, pois a córnea de cada olho é utilizada em receptores distintos.

Enquanto novas iniciativas não ganham escala, pacientes seguem à espera do procedimento que devolve transparência e forma à córnea, permitindo restaurar ou melhorar a visão. Os dados indicam que, sem aumento efetivo da oferta de tecido ocular e sem correção do financiamento, o tempo de espera tende a permanecer elevado nos próximos anos.

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