A designação “esquimó” deixou de ser aceita pelos habitantes originários da Groenlândia, que passaram a defender o uso do nome “inuíte” para se referir ao próprio povo.
Origem do termo e mudança de uso
Os primeiros habitantes da Groenlândia são os inuítes, comunidade que, durante muito tempo, foi denominada “esquimó” por estrangeiros. Registros históricos indicam que a palavra “esquimó” se popularizou com o significado de “comedores de carne crua”, conceito associado a estereótipos de inferioridade impostos por colonizadores. Por não ter sido escolhida por quem a recebia e por carregar conotações pejorativas, a denominação passou a ser rejeitada pelos próprios inuítes. Atualmente, a população local prefere ser identificada com o termo usado em sua própria língua, reafirmando autonomia cultural e histórica.
Colonização e apagamento cultural
Antes da chegada de colonizadores europeus, os inuítes viviam na maior ilha do planeta fabricando vestimentas com pele de urso-polar e consumindo peixe recém-pescado. Essa forma de vida começou a sofrer alterações a partir do século X, com a chegada de vikings provenientes da Islândia. Os exploradores batizaram o território de “Groenlândia” — “terra verde” — numa estratégia destinada a atrair novos colonos, mesmo que a maior parte da região permaneça coberta por gelo.
Posteriormente, a Dinamarca transformou a Groenlândia em colónia sem consulta à população local. A administração dinamarquesa instituiu escolas que ensinavam apenas o idioma dinamarquês e promoveu a cristianização, medidas que contribuíram para o apagamento de práticas tradicionais inuítes. Ao longo do período colonial, a exploração econômica concentrou-se na caça à baleia e no comércio de peles de foca, atividades lucrativas para Copenhague, mas com baixo retorno em infraestrutura e serviços para a ilha.
Dependência económica e desafios sociais
Atualmente, a Groenlândia abriga cerca de 56 mil habitantes. Embora existam planos de independência total em relação à Dinamarca, o território ainda depende financeiramente da antiga metrópole: aproximadamente metade do orçamento local é composto por repasses dinamarqueses. Saúde e educação são oferecidas de forma gratuita, mas problemas sociais persistem, com índices elevados de alcoolismo e suicídio.
Imagem: que termo
Interesse geopolítico em ascensão
O degelo acelerado do Ártico, provocado pelo aquecimento global, abriu novas rotas marítimas e aumentou a visibilidade das reservas minerais sob o manto de gelo groenlandês. Esses recursos são considerados estratégicos para a produção de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrónicos e armamentos. Diante da relevância económica e militar, grandes potências intensificaram a presença na região. O Oceano Ártico passou a receber exercícios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e bases russas, transformando-se em ponto focal de disputas.
Reação a propostas de compra ou controle
Em anos recentes, a Groenlândia voltou ao centro do debate internacional após manifestações de interesse por parte de governantes estrangeiros na aquisição do território. Autoridades locais rejeitaram categoricamente qualquer possibilidade de venda, afirmando que a ilha “não é uma mercadoria”. Para o governo autonômico e para a população inuíte, a questão central é a autodeterminação — tanto política quanto cultural.
Identidade inuíte como afirmação de soberania
A substituição do termo “esquimó” por “inuíte” vai além de uma correção linguística. O movimento simboliza a recuperação de um nome autodesignado, livre das marcas de dominação impostas no passado. Ao escolherem como se apresentar ao mundo, os inuítes reafirmam a ligação ancestral com a terra, as tradições e os idiomas locais. A mudança linguística funciona, assim, como parte de um processo mais amplo de resistência a estereótipos e de busca por reconhecimento pleno da identidade e dos direitos desse povo no cenário internacional.





