A TV Brasil exibe nesta segunda-feira (26), às 23h, a reprise do episódio “As marcas do racismo na escola”, integrante do programa Caminhos da Reportagem. A produção conquistou o terceiro lugar no 67.º Prêmio ARI Banrisul de Jornalismo e encerra a sequência de reapresentações de conteúdos premiados antes do retorno dos episódios inéditos, previsto para a próxima segunda (2/2).
Lei completa 20 anos, mas desafios persistem
O programa aborda a permanência do racismo em ambientes escolares duas décadas após a promulgação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas redes públicas e privadas. Dados do Ministério da Educação revelam que, entre 2019 e 2021, somente 50% das escolas desenvolveram algum projeto ligado às relações étnico-raciais. Mesmo entre as que avançaram, a estrutura de apoio permanece limitada: 14,7% das direções afirmam dispor de materiais pedagógicos sobre o tema, e apenas 0,92% dos docentes possuem formação específica.
A secretária de Educação Continuada, Diversidade e Inclusão do MEC, Zara Figueiredo, atribui a lenta implementação à necessidade de coordenação federal mais robusta. “Em um país com desigualdades profundas, é essencial que o ministério alinhe as redes e as auxilie na execução da política”, afirma. Para 2024, a pasta abriu 215 mil vagas de formação para professores e distribuiu kits didáticos com conteúdo antirracista para o ensino fundamental.
Depoimentos revelam impactos diretos nos estudantes
O episódio reúne relatos de educadoras que sofreram discriminação durante a infância. A professora Gina Vieira recorda ter sido isolada no fundo da sala até urinar na roupa, apesar de toda a turma estar em situação de indisciplina. Já Keila Vila Flor relata piadas de cunho étnico-racial direcionadas a ela, enquanto Paula Janaína descreve a divisão de turmas em sua antiga escola particular, onde a classe “B”, composta majoritariamente por estudantes negros, era considerada de aprendizado mais lento.
Para o escritor Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti com O avesso da pele e entrevistado no programa, discutir o tema em sala cria responsabilidade ética coletiva. “Não existe democracia enquanto houver racismo”, observa o autor, que teve obras censuradas em pelo menos quatro estados ao longo de 2024.
Projetos mostram caminhos possíveis
Apesar dos entraves, a reportagem apresenta iniciativas que buscam reverter o quadro de exclusão. No Distrito Federal, o projeto Cresp@s & Cachead@s trabalha a autoestima de estudantes negros a partir da valorização de suas identidades. Em Salvador, a Escola Maria Felipa adota currículo que equilibra contribuições africanas, indígenas e europeias em todas as áreas do conhecimento. “Não levamos a cultura africana apenas para a capoeira ou o samba; ela está presente também na história, na matemática e na ciência”, explica a fundadora Bárbara Carine.
Imagem: Educação
A adoção de propostas semelhantes é apontada por especialistas como forma de cumprir o pacto previsto pela legislação e reduzir desigualdades que se refletem em desempenho acadêmico, evasão e saúde mental dos alunos.
Próximos passos do programa
Com a reprise, Caminhos da Reportagem conclui a série dedicada a episódios reconhecidos por premiações nacionais. A partir de 2 de fevereiro, a produção volta a exibir reportagens inéditas, mantendo a investigação de temas sociais de relevância nacional.
O episódio conta com reportagem de Iara Balduino, produção de Carolina Oliveira e Patrícia Araújo, imagens de André Rodrigo Pacheco, Rogério Verçoza e Sigmar Gonçalves, além de edição de texto de Paulo Leite. A equipe técnica inclui Alexandre Souza, Dailton Matos, Edivan Viana, Rafael Calado e Thiago Pinto, enquanto a edição de imagem e arte ficou a cargo de André Eustáquio, Márcio Stuckert, Alex Sakata, Caroline Ramos e Wagner Maia.
Com foco na divulgação de dados e experiências práticas, a reportagem reafirma a urgência de políticas estruturadas para enfrentar o racismo escolar e garantir que a Lei 10.639/2003 se torne realidade em todas as salas de aula do país.





