A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) reafirma que a inteligência artificial (IA) não deve assumir o lugar dos professores. Segundo a chefe da Secção de Tecnologia e Inteligência Artificial na Educação, Shafika Isaacs, a tecnologia pode complementar o trabalho em sala de aula, mas não reproduz a dimensão social, cultural e humana da aprendizagem.
Mitos que ameaçam a qualidade do ensino
A Unesco identifica três ideias equivocadas que, se mantidas, podem comprometer políticas públicas e estratégias pedagógicas. O primeiro mito é o da substituição: a crença de que softwares e algoritmos poderiam desempenhar todas as funções de um educador. Para a agência, a docência envolve interação humana, estímulo emocional e mediação cultural — elementos que a IA, construída para processar dados, não consegue assegurar.
O segundo mito é o da personalização restrita a algoritmos. Modelos de IA prometem percursos de aprendizagem adaptativos, mas Isaacs adverte que a educação deve fomentar pensamento crítico, criatividade e valores éticos, dimensões que transcendem respostas calculadas por sistemas automatizados.
Completa essa lista o mito da velocidade. A ideia de que aprender mais rápido equivale a aprender melhor ignora que o processo educativo requer tempo, reflexão e esforço. A Unesco vê risco de se privilegiar a eficiência em detrimento da profundidade do conhecimento, caso a rapidez se torne métrica principal.
Áreas em que a IA pode agregar valor
Embora critique abusos, a Unesco reconhece ganhos quando a tecnologia é aplicada de forma ética. Ferramentas de análise de dados ajudam a identificar alunos com dificuldades, permitindo intervenções precoces contra o abandono escolar. Além disso, sistemas de tradução automática e reconhecimento de voz ampliam a inclusão linguística, beneficiando comunidades indígenas, grupos marginalizados e estudantes neurodivergentes.
Outro ponto positivo é o estímulo ao raciocínio. Ao propor questões complexas ou gerar feedback imediato, aplicações de IA podem funcionar como tutores auxiliares que incentivam a reflexão, desde que o estudante participe ativamente do processo. Essas diretrizes integram o Quadro de Competências em IA para Estudantes elaborado pela Unesco.
Riscos de uso inadequado
Três perigos principais são destacados pela agência. O primeiro é a externalização do pensamento: recorrer à IA para produzir respostas prontas sem esforço cognitivo próprio. Essa prática enfraquece a autonomia intelectual e o desenvolvimento da capacidade analítica.
Imagem: ilustrativa
Em seguida, a Unesco chama atenção para o viés algorítmico e a perda de soberania sobre dados educacionais. Plataformas globais, quando geridas fora do contexto local, podem perpetuar discriminações culturais ou socioeconômicas, além de ameaçar privacidade e segurança de crianças e adolescentes.
Por fim, existe o risco de erosão do papel social da escola. Se o ensino migrar para ambientes completamente automatizados, professores podem ser reduzidos à função de gestores de informação, e os alunos, a usuários isolados. A agência defende a sala de aula como espaço de justiça social e convivência humana.
Investimento em docentes continua crucial
A Unesco calcula que o mundo precisará formar e contratar 44 milhões de professores adicionais até 2030 para cumprir metas educacionais globais. A organização frisa que políticas de IA devem priorizar formação continuada, condições de trabalho dignas e valorização profissional, garantindo que a tecnologia sirva ao bem público.
Governança e cooperação internacional
O debate sobre IA na educação evolui de como atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para como regular a própria inteligência artificial. A Unesco propõe uma resposta coletiva baseada em solidariedade internacional para evitar que disparidades tecnológicas ampliem desigualdades entre países e regiões.
Como órgão das Nações Unidas, a entidade atua como plataforma de concertação global e referência normativa. Seu objetivo é assegurar que a incorporação da IA nos sistemas de ensino respeite direitos humanos, promova desenvolvimento sustentável e preserve a centralidade da experiência humana na aprendizagem.






