Investigadores demonstraram pela primeira vez que um supersólido — fase da matéria que combina ordem cristalina e fluxo sem atrito — pode existir à temperatura ambiente. A equipa recorreu à interação entre luz e matéria num dispositivo de nanoescala, abrindo caminho para aplicações em fotónica e tecnologias quânticas.
Como o experimento foi conduzido
O estudo foi desenvolvido no Instituto Politécnico Rensselaer, nos Estados Unidos, sob coordenação de Wei Bao. Os cientistas construíram um chip que une um cristal de perovskita de alta qualidade a uma nanoestrutura projetada para aprisionar e moldar luz. Quando o conjunto é iluminado por um laser, formam-se polaritões — quasipartículas híbridas compostas por parte luz e parte matéria.
Em níveis baixos de energia, esses polaritões condensam-se num único estado coerente, comportando-se como um sólido ordenado. Com o aumento da potência do laser, o sistema cruza um limiar crítico: perde a uniformidade e reorganiza-se de forma espontânea num padrão periódico, mantendo a coerência quântica em toda a estrutura. Esse duplo caráter — rigidez cristalina aliada a fluxo sem viscosidade — caracteriza o supersólido.
Por que a descoberta é relevante
Até então, supersólidos só haviam sido observados em condições criogénicas, próximas do zero absoluto. A nova abordagem demonstra que a fase exótica pode surgir em temperatura ambiente, superando um obstáculo histórico na física da matéria condensada. Segundo Wei Bao, o resultado confirma que “é possível criar e controlar esse estado usando luz numa plataforma escalável”.
A realização recorre a processos dinâmicos, em vez de equilíbrios térmicos tradicionais. À medida que a equipe injeta mais energia no sistema, diferentes estados quânticos competem entre si. Quando a competição se intensifica, o dispositivo já não consegue manter um único estado. Ele distribui-se em vários modos sincronizados que formam o padrão cristalino observado. Em repetições consecutivas do teste, o arranjo espacial varia ligeiramente, sinal de que a configuração surge de forma espontânea e não é imposta externamente.
Impacto potencial em fotónica e computação quântica
A emissão coerente de luz em múltiplos modos, característica do supersólido, poderá originar lasers com padrões espaciais ajustáveis ou desempenho melhorado. A capacidade de reconfigurar esses padrões em tempo real também se mostra promissora para computação ótica e processamento de informação, onde canais de luz paralelos aumentam a largura de banda e reduzem o consumo energético.
Além disso, o controlo preciso sobre a fase quântica pode beneficiar o desenvolvimento de circuitos fotónicos integrados. Dispositivos que operam a temperatura ambiente são mais simples de implementar em produtos comerciais, pois dispensam sistemas de arrefecimento complexos e custosos. Consequentemente, a descoberta aproxima aplicações quânticas do mercado de consumo e de infraestruturas de telecomunicações.
Estratégias de confinamento de luz
O sucesso do experimento exigiu uma arquitetura capaz de aprisionar fotões durante tempo suficiente para que interagissem de forma coletiva. Os engenheiros combinaram a perovskita — material semicondutor conhecido pela forte resposta ótica — com uma rede de cavidades em nanoescala. Essas cavidades funcionam como armadilhas, prolongando a permanência da luz e intensificando o acoplamento entre fotões e excitações eletrónicas do cristal.
Quando os fotões confinados criam polaritões, a natureza mista dessas partículas permite que elas se comportem simultaneamente como ondas de luz e como quasipartículas materiais. Essa dualidade facilita a emergência de propriedades macroscópicas quânticas, como a coerência de fase em todo o dispositivo.
Imagem: Tecnologia e Inovação
Próximos passos da pesquisa
Após confirmar a formação de supersólidos à temperatura ambiente, o grupo pretende otimizar o desenho do chip para aumentar a estabilidade e reduzir a energia necessária para gerar o estado quântico. Também estão previstas experiências que explorem a manipulação ativa dos padrões, com vistas a moduladores óticos reconfiguráveis.
Outro objetivo consiste em integrar os dispositivos com plataformas eletrónicas convencionais. A combinação de eletrónica e fotónica num mesmo circuito pode originar sistemas híbridos de alto desempenho para inteligência artificial, criptografia quântica e sensores de precisão.
Contexto histórico da luz como matéria
A ideia de que a luz pode sofrer transições de fase ganhou força na última década, quando cientistas solidificaram feixes fotónicos e investigaram fluidos de luz em microcavidades. Esses avanços mostraram ser possível tratar a radiação eletromagnética como um “material programável”, desde que adequadamente confinada e acoplada a suportes físicos.
A presente realização amplia esse quadro ao combinar, num único dispositivo, as características de cristal e fluido quântico. O resultado reforça a tendência de usar luz não apenas para transmitir informação, mas também como elemento estrutural em novas formas de matéria.
Implicações para a física fundamental
O supersólido desafia a separação clássica entre sólidos e líquidos ao exibir ordem posicional rígida e capacidade de fluxo sem resistência. Observar esse comportamento em condições ambientes fornece um laboratório acessível para testar teorias sobre simetria quebrada, competição de fases e dinâmicas fora do equilíbrio.
Além disso, o experimento permite investigar a influência da aleatoriedade quântica na seleção de estados macroscópicos. Cada nova configuração do padrão periódico fornece dados sobre como flutuações quânticas se traduzem em fenómenos observáveis a escalas maiores.
Com a demonstração de que supersólidos podem ser produzidos e controlados num chip operando à temperatura ambiente, a fronteira entre investigação básica e aplicação tecnológica fica ainda mais tênue. O trabalho abre rotas para dispositivos fotónicos avançados, oferece um sistema-modelo para estudar física quântica de muitos corpos e sugere que estados de matéria outrora exóticos podem tornar-se componentes rotineiros de futuras plataformas de informação.






