O futebol ganhou um reconhecimento inédito no calendário internacional. A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou em 2024 uma resolução que institui oficialmente o Dia Mundial do Futebol, celebrado em 25 de maio. A data assinala o centenário do primeiro torneio internacional com representatividade global, disputado nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, considerado a semente da atual Copa do Mundo.
Esporte como ponte para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Ao justificar a criação da efeméride, a ONU sublinha a capacidade do futebol de atravessar fronteiras geográficas, barreiras económicas e diferenças culturais. Segundo o texto aprovado, o esporte funciona como catalisador para os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), oferecendo uma plataforma prática para promover saúde, educação, inclusão e igualdade de género. A organização ressalta que partidas disputadas em grandes estádios ou em campos de várzea geram espaços de convivência onde valores como tolerância, respeito e solidariedade ganham visibilidade.
A resolução menciona ainda o futebol como instrumento de diplomacia informal, capaz de aproximar comunidades e nações em torno de interesses comuns. O documento reconhece o papel da Federação Internacional de Futebol (FIFA) e das federações nacionais na manutenção dessa rede global, mas faz um apelo direto a governos, empresas, universidades e organizações não governamentais para ampliar o acesso ao esporte. Entre as recomendações estão políticas públicas que fomentem atividade física, projetos de empoderamento feminino e iniciativas de paz em regiões afetadas por conflitos.
Depoimentos ilustram alcance e diversidade
A oficialização da data mobilizou personalidades ligadas ao esporte. Joshua Nascimento, filho de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, destacou o caráter universal do jogo: “O futebol conecta pessoas de diferentes países e línguas. Todos encontram uma forma comum de jogar, competir e se divertir”. Para ele, o Dia Mundial do Futebol reforça a importância de preservar a essência do chamado “beautiful game”.
O impacto transcende o campo. Em Nova Iorque, diplomatas e funcionários das Nações Unidas deixaram o terno de lado para participar de partidas amistosas organizadas em homenagem à data. Uma das atividades foi a convocação de Amigos do Futebol, que reuniu embaixadores, representantes de alto escalão do Secretariado e antigos atletas profissionais. Outro destaque foi a apresentação da Seleção de Refugiados, iniciativa do projeto Futebol Sem Fronteiras que utiliza a modalidade para facilitar a integração de pessoas deslocadas à força.
Português desponta como segunda língua do futebol
Nos bastidores do esporte, o ex-funcionário do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) Nuno Crisóstomo, atualmente à frente da equipa de voluntários da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos, chamou atenção para a crescente presença lusófona no cenário técnico. De acordo com ele, o português é hoje a segunda língua mais falada nos gramados profissionais, atrás apenas do inglês. O índice reflete não apenas o número de atletas brasileiros e portugueses, mas também a exportação de treinadores: são cerca de 136 técnicos portugueses a comandar clubes no exterior, número que tende a ser ainda maior quando somados profissionais do Brasil e de outros países de língua portuguesa.
A influência cultural repercute em centros de imigração históricos, como o bairro de Ironbound, em Newark (Nova Jérsei). Lá, o treinador Christopher Nassif trabalha com equipas sub-17 e sub-19 e relata transformações sociais geradas pela bola: “O futebol ajudou-me a ser melhor pai, marido e cidadão. Tento transmitir aos jovens que o esporte pode moldar caráter e abrir oportunidades acadêmicas ou profissionais”.
Património histórico e educação esportiva
No Brasil, o Museu do Futebol, inaugurado em 2008 na cidade de São Paulo, aproveitou a nova data para reforçar sua missão de contar a história do país a partir da evolução do esporte. A diretora técnica, Marília Bonas, lembra que o acervo cobre desde a chegada da modalidade no final do século XIX até iniciativas contemporâneas, incluindo futebol feminino, modalidades adaptadas e práticas indígenas. O museu funciona de terça a domingo, com entrada gratuita às terças-feiras, e disponibiliza material educativo online.
Em paralelo, a ONU estimula Estados-membros a incorporar o futebol em programas de saúde pública. O argumento central aponta a simplicidade da prática, considerada acessível mesmo em contextos de baixa infraestrutura. Relatórios do organismo sugerem que a adoção de jogos regulares reduz custos com doenças crónicas, melhora a saúde mental e fortalece laços comunitários.
Imagem: ilustrativa
Contagem regressiva para 2026 reforça visibilidade
O ambiente criado pelo Dia Mundial do Futebol também projeta atenção para a próxima Copa do Mundo, marcada para 2026 nos Estados Unidos, no Canadá e no México. Com vários estádios em fase final de preparação, voluntários recrutados por Nuno Crisóstomo já recebem formação específica para acolher torcedores de todos os continentes. A expectativa é que a competição amplifique as discussões sobre diversidade linguística e inclusão, temas evidenciados pela recente resolução da ONU.
Para adeptos de língua portuguesa, um ponto simbólico será a partida de 13 de junho em Newark, onde a Seleção Brasileira enfrentará Marrocos em amistoso preparatório. O encontro deve atrair comunidades de origem lusa e marroquina que residem na Costa Leste dos EUA, reforçando o caráter multicultural previsto pela organização do torneio.
Desafios e compromissos futuros
Ao proclamar o 25 de maio como Dia Mundial do Futebol, a ONU convida Estados, empresas e entidades civis a assumirem compromissos verificáveis. Entre as metas delineadas estão:
- Ampliar o acesso de meninas e mulheres ao esporte organizado;
- Integrar refugiados e migrantes por meio de ligas comunitárias;
- Criar programas de bolsas de estudo associados à prática esportiva;
- Promover campanhas globais contra o racismo e a discriminação nos estádios;
- Fomentar infraestruturas sustentáveis em arenas e centros de treinamento.
Embora a resolução não imponha sanções, o texto funciona como guia de boas práticas para distintos atores sociais. A FIFA e federações continentais foram citadas como parceiras estratégicas na coleta de dados sobre participação popular, igualdade salarial e impacto económico.
Especialistas em políticas públicas avaliam que a oficialização da data oferece nova alavanca diplomática aos países que utilizam soft power esportivo para estreitar relações bilaterais. No curto prazo, a expectativa recai sobre a formulação de indicadores que permitam mensurar os avanços na adoção dos ODS por meio do futebol, algo que pode influenciar relatórios futuros da própria ONU.
Comemorado agora de forma oficial, o 25 de maio consolida-se como momento anual para celebrar conquistas, refletir sobre desafios e projetar o futuro de um esporte que, segundo a ONU, “cria um espaço inigualável para a cooperação humana”.






