Crises globais mantêm 258 milhões de crianças sem aprendizagem adequada

imagem representando a Educacao Digital Brasil.

Genebra, 22 de maio de 2024 — Conflitos armados, deslocamentos forçados e instabilidade socioeconômica continuam a afastar 258 milhões de crianças e adolescentes de uma educação plena em todo o mundo. O dado resulta do relatório anual do fundo Education Cannot Wait (ECW), mecanismo global das Nações Unidas voltado a emergências educacionais.

Segundo o documento, elaborado a partir de levantamentos oficiais e informação de agências humanitárias, 93 milhões de jovens estão totalmente fora da escola, enquanto outros 165 milhões, embora matriculados, estudam em circunstâncias tão precárias que correm risco real de abandono. No total, uma em cada três crianças em idade escolar vive hoje em contexto de crise prolongada.

Países em conflito concentram a maior parte dos casos

A análise indica que apenas vinte países reúnem 182 milhões de crianças atingidas pela interrupção do direito ao estudo, o equivalente a quase 80% do universo global pesquisado. São nações submetidas a guerras civis, ocupações, violência armada contínua ou grandes catástrofes climáticas que comprometem infraestruturas básicas.

Nesses territórios, professores abandonam salas de aula por falta de segurança, instalações escolares são destruídas ou ocupadas para fins militares e famílias se deslocam repetidamente em busca de abrigo. As aulas, quando ocorrem, sofrem com turmas superlotadas, ausência de material pedagógico e longos períodos de suspensão.

O relatório observa ainda que crianças deslocadas, refugiadas ou pertencentes a minorias étnicas enfrentam obstáculos adicionais, como barreiras linguísticas, discriminação e dificuldade de reconhecimento de certificados escolares obtidos em regiões de fronteira.

Mozambique ilustra impactos múltiplos sobre o ensino

Entre os países analisados, Moçambique aparece como único lusófono e simboliza como diferentes tipos de crise se sobrepõem. Nas províncias do norte, onde grupos armados atacam aldeias e cidades desde 2017, menos de 7% das crianças atingem níveis considerados mínimos de proficiência em leitura, contra mais de 50% em zonas afastadas da violência, mas sujeitas a ciclones e cheias ciclícas.

Dados citados pelo ECW ressaltam que a presença de combates reduz drasticamente a permanência dos estudantes na escola. Edifícios são incendiados ou convertidos em bases militares, rotas de transporte tornam-se inseguras e muitas famílias priorizam o trabalho informal de subsistência em detrimento da frequência escolar.

Já nas regiões periodicamente devastadas por desastres naturais, a interrupção tende a ser pontual, porém recorrente. Sempre que ocorre um ciclone, aulas são suspensas até que as estruturas sejam reconstruídas. Esse movimento repetitivo compromete a continuidade do currículo e afeta o desempenho global, mesmo quando há relativa estabilidade política.

Consequências socioeconômicas de longo prazo

A organização alerta que cada ano de escolaridade perdido se reflete em queda direta de produtividade futura e, consequentemente, em redução do crescimento econômico de países inteiros. Sem alfabetização funcional, jovens têm acesso restrito ao mercado de trabalho formal, ampliando ciclos de pobreza e exclusão.

A diretora executiva do ECW, Maysa Jalbout, define o financiamento educacional em áreas de crise como “apólice de seguro” capaz de proteger investimentos humanitários mais amplos. De acordo com ela, garantir aprendizagem básica impede que crianças sejam recrutadas por grupos armados, reduz índices de casamento infantil e fortalece coesão comunitária.

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Imagem: ilustrativa

Meta de US$ 600 milhões até 2030

Visando ampliar a cobertura, o fundo da ONU planeia mobilizar 600 milhões de dólares adicionais até 2030. O objetivo declarado é alcançar mais 10 milhões de crianças em crises prolongadas, oferecendo material didático, formação de professores, reabilitação de escolas danificadas e apoio psicossocial a alunos expostos a traumas severos.

O relatório lembra que cada dólar investido em educação emergencial gera retorno multiplicado na forma de salários futuros, redução de dependência de ajuda externa e diminuição de migrações forçadas. Mesmo assim, o setor recebe apenas 2,9% do total destinado à assistência humanitária global, montante avaliado pelos especialistas como insuficiente.

Desafios para a comunidade internacional

Especialistas do ECW destacam três pontos de atenção para o curto prazo:

• financiamento previsível e de longo prazo, evitando cortes súbitos que paralisam projetos em andamento;
• coordenação entre governos locais, doadores e agências para não duplicar esforços e garantir alcance a zonas remotas;
• integração de respostas educacionais com programas de nutrição, saúde mental e proteção infantil, criando redes de apoio completas.

O documento sugere, ainda, a adoção de currículos flexíveis que permitam recuperação de conteúdo perdido, treinamento de professores para ambientes de alto estresse e sistemas de monitorização que detectem risco de evasão antes que o aluno abandone a escola.

Panorama global aponta urgência

Embora existam exemplos positivos de recuperação — como a reabertura gradual de escolas em algumas regiões sírias e a expansão de turmas de acolhimento para refugiados da Ucrânia em países vizinhos — a tendência geral permanece preocupante. Em diversas nações, a combinação de violência, deslocamento climático e crise econômica agrava a pressão sobre redes de ensino já fragilizadas pela pandemia de COVID-19.

Para o ECW, a situação exige ação imediata para impedir que uma geração inteira seja privada de alfabetização básica. O fundo reforça que a realização do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 — assegurar educação inclusiva, equitativa e de qualidade — só será possível se a comunidade internacional tratar ambientes de crise como parte integrante da agenda educacional global, e não como exceção periférica.

Sem um compromisso coletivo, conclui o relatório, milhões de crianças continuarão longe das salas de aula ou permanecerão nelas sem aprender, perpetuando desigualdades que ultrapassam fronteiras e se estendem pelas próximas décadas.

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