A Nothing, fabricante britânica conhecida por smartphones e acessórios de design translúcido, planeia expandir o catálogo com dois dispositivos baseados em inteligência artificial: um par de óculos inteligentes previsto para 2025 e novos earbuds com recursos de IA programados para este ano. As informações constam de um relatório da Bloomberg que cita colaboradores sob condição de anonimato.
Foco em estratégia multiecrã
Segundo o documento, o presidente-executivo e cofundador Carl Pei, que antes mostrava ceticismo quanto a óculos conectados, decidiu adotar uma abordagem de vários dispositivos para além dos telemóveis e auscultadores já comercializados pela empresa. A alteração de rumo propõe posicionar a Nothing num segmento emergente onde inteligência artificial, wearables e serviços na nuvem convergem.
Os óculos em desenvolvimento devem incorporar câmaras, microfones e colunas embutidas. O processamento das consultas de IA ocorrerá parcialmente na nuvem, com o smartphone a servir de ponte para conectividade e gestão de dados. Este modelo replicaria o conceito seguido por outras marcas que utilizam dispositivos complementares para alargar funções de assistente virtual, tradução em tempo real ou captação de conteúdo multimédia.
Earbuds com IA chegam primeiro
Antes dos óculos, a Nothing planeia lançar ainda em 2024 um par de earbuds equipados com funcionalidades inteligentes. O recurso exato não foi detalhado, mas a aposta indica continuidade em linhas de áudio que representam boa parte do faturamento da companhia. Em declarações dadas ao TechCrunch em 2023, Carl Pei referiu intenção de apresentar o “primeiro dispositivo de IA” da Nothing em 2026; o novo cronograma revela antecipação dessa meta.
O movimento coloca a marca a competir diretamente com Meta, Rokid e outros fabricantes que já dispõem de óculos inteligentes. A Meta, por exemplo, lançou múltiplas gerações das Ray-Ban Smart Glasses e divulgou recentemente variantes compatíveis com lentes graduadas. Rumores apontam que a Apple pode apresentar um modelo próprio em 2025, enquanto Google e Samsung cooperam num projeto semelhante que pode chegar ainda este ano.
Financiamento e posicionamento de mercado
A Nothing alcançou o estatuto de unicórnio em 2023, após captar 200 milhões de dólares numa ronda Série C que avaliou a empresa em 1,3 mil milhões de dólares. Apesar do aumento de capital e de forte visibilidade entre entusiastas de tecnologia, a participação no mercado global de smartphones continua limitada. O segmento permanece dominado por Apple, Samsung, algumas fabricantes chinesas e, em menor escala, o próprio Google.
Para diferenciar-se, Carl Pei tem reiterado a necessidade de inovação simultânea em hardware, software e experiências baseadas em IA. No ano passado, a Nothing apresentou uma ferramenta que permite criar “miniapps” com suporte a comandos gerados por inteligência artificial, sinalizando a intenção de integrar recursos avançados em diferentes pontos do ecossistema.
Detalhes técnicos em desenvolvimento
Embora ainda não existam especificações oficiais, fontes ligadas ao projeto indicam que os óculos deverão suportar captura de vídeo em curta duração, áudio direcional para chamadas e reprodução de mídia, além de funcionalidade de assistente pessoal ativada por voz. A conexão constante com o telemóvel permitiria descarregar parte do processamento para a nuvem, reduzindo peso e consumo energético no dispositivo vestível.
A decisão de incluir colunas abertas, em vez de auriculares, acompanhará a tendência dos fabricantes que priorizam conforto e consciência situacional. Sensores de proximidade e gestos laterais podem ser integrados para controlar reprodução, realizar fotos ou responder a mensagens sem recorrer ao ecrã do telefone.
Imagem: ilustrativa
Ecossistema Nothing em expansão
Ao apostar num portfólio que combina telemóvel, auscultadores e agora óculos inteligentes, a Nothing segue o modelo de ecossistema fechado que consagrou concorrentes maiores. A estratégia procura fidelizar utilizadores que apreciam o design característico de componentes expostos e efeitos de iluminação LED, marcas registadas dos produtos Phone (1), Phone (2) e da linha Ear.
A integração de inteligência artificial em múltiplos dispositivos pode reforçar a proposta de valor, sobretudo se a Nothing conseguir oferecer continuidade de funcionalidades entre o smartphone Android da empresa e os novos wearables. Entre as possibilidades mencionadas por analistas de mercado estão transcrição automática de chamadas, legendas em tempo real e personalização de comandos por meio de linguagem natural.
Desafios regulatórios e de privacidade
O uso de câmaras embutidas e microfones em óculos inteligentes costuma levantar preocupações sobre privacidade. Empresas que já exploram o segmento precisaram implementar luzes indicativas e políticas de armazenamento transparente para atender a exigências regulamentares. Caso pretenda competir globalmente, a Nothing terá de garantir conformidade com normas como o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) na Europa e legislações locais em outros mercados.
Além disso, o processamento de consultas em nuvem implica salvaguardas de segurança para prevenir acesso não autorizado a gravações, fotografias ou transcrições geradas pelos utilizadores. Uma abordagem centrada no utilizador, aliada a práticas de encriptação ponta a ponta, pode mitigar riscos e facilitar adoção mais ampla dos óculos.
Próximos passos esperados
Embora a Nothing ainda não tenha comentado oficialmente o relatório, espera-se que a companhia revele mais detalhes sobre os earbuds com IA nos próximos meses, possivelmente em eventos próprios ou durante feiras internacionais de tecnologia. Caso mantenha o calendário, os óculos inteligentes podem ser apresentados em 2025 com disponibilidade global faseada, começando pelos principais mercados onde os smartphones Phone (2) já têm presença.
A estratégia terá impacto direto na capacidade da Nothing de crescer além do nicho de entusiastas. Caso consiga entregar produtos competitivos em preço, desempenho e integração, a empresa poderá ganhar espaço num setor em rápida evolução, marcado pelo cruzamento entre hardware vestível e serviços baseados em inteligência artificial.
Com o capital obtido na última ronda e a atenção conquistada pelo design diferenciado, a Nothing reforça o posicionamento como uma das startups mais observadas no panorama de dispositivos de consumo. O êxito dos futuros óculos inteligentes e dos earbuds com IA servirá como termómetro para medir o potencial da marca em escalar inovações para mercados de massa.






