O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, solicitou que governos, setor privado e sociedade civil unam esforços para fortalecer a infraestrutura digital em todo o mundo. O pedido foi feito por ocasião do Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação de 2026, celebrado em 17 de maio, data que marca também o aniversário da União Internacional das Telecomunicações (UIT).
Apelo por infraestrutura digital resiliente
De acordo com Guterres, cabos submarinos, satélites e centros de dados formam a espinha dorsal da economia e das comunidades globais, permitindo acesso ininterrupto à internet para mais de 5,5 milhões de pessoas. Apesar dessa ampla rede, cerca de 2,2 bilhões continuavam desconectados em 2025, evidenciando disparidades no acesso, na qualidade da conexão e nas competências digitais.
O dirigente das Nações Unidas definiu a conectividade como um bem público essencial e alertou que sua resiliência é decisiva para enfrentar crises futuras. Ele lembrou que falhas ou interrupções em sistemas digitais expõem populações inteiras a desinformação, ciberataques e perdas económicas, além de limitar a disseminação de serviços básicos, como educação, saúde e resposta a emergências.
Desafios e metas para a inclusão global
A UIT destaca que a velocidade da transformação digital não é uniforme. Regiões com menor desenvolvimento humano apresentam taxas de penetração muito inferiores às observadas em mercados avançados, criando novas barreiras sociais e económicas. Guterres afirmou que a lacuna digital tende a agravar a vulnerabilidade das comunidades já excluídas, sobretudo diante de emergências climáticas e do avanço desigual da inteligência artificial.
Entre as prioridades elencadas pelo secretário-geral estão o aumento do investimento em infraestrutura de banda larga, a expansão da cobertura de redes móveis de última geração e a capacitação de profissionais em competências digitais. Ele sublinhou que, sem tais medidas, será difícil garantir que a IA seja desenvolvida e utilizada de forma segura, ética e alinhada aos direitos humanos.
Pacto Digital Global como referência
Adotado pelos Estados-Membros da ONU em 2024, o Pacto Digital Global foi novamente citado por Guterres como roteiro para um futuro digital aberto, livre e seguro. O documento propõe princípios para a governança de tecnologias emergentes, incentivo à inovação responsável e proteção de dados. O chefe da ONU apontou ainda que a implementação efetiva do pacto depende de financiamento coordenado, políticas públicas consistentes e mecanismos de monitorização transparentes.
Dentro desse contexto, o secretário-geral encorajou países a alinharem seus planos nacionais de conectividade às recomendações da UIT, garantindo que investimentos contemplem tanto áreas urbanas quanto rurais. Guterres ressaltou que a construção de redes resilientes não implica apenas instalar equipamentos; envolve também treinar usuários, reforçar a segurança cibernética e promover regulamentos que estimulem a concorrência.
Impacto de emergências climáticas e ciberameaças
O discurso de Guterres incluiu alertas para o facto de que eventos climáticos extremos prejudicam diretamente a infraestrutura digital, provocando interrupções de serviço que comprometem a comunicação em momentos críticos. Ele defendeu a adoção de padrões de construção mais robustos, capazes de suportar desastres naturais, e a criação de protocolos de resposta rápida para restabelecer serviços essenciais.
No campo da segurança, o secretário-geral observou o aumento de ataques a redes públicas e privadas, enfatizando que a proteção de dados sensíveis requer cooperação internacional. Segundo ele, ameaças cibernéticas podem ser mitigadas com partilha de informações, investimentos em criptografia avançada e formação contínua de profissionais especializados.
Imagem: ilustrativa
Ação conjunta de governos e iniciativa privada
Para concretizar os objetivos de inclusão, Guterres pediu que governos estabeleçam marcos regulatórios previsíveis e transparentes, capazes de atrair capital privado a projetos de infraestrutura. Ele sugeriu modelos de financiamento misto, que combinem recursos públicos, empréstimos multilaterais e aportes de empresas tecnológicas, reduzindo custos de implementação em regiões carentes.
O secretário-geral mencionou ainda parcerias público-privadas bem-sucedidas em países que conseguiram reduzir o preço da banda larga e ampliar a cobertura móvel. Conforme enfatizou, experiências desse tipo demonstram que o retorno económico e social da conectividade compensa o investimento inicial, sobretudo quando políticas públicas asseguram competição justa e apoio a pequenos provedores.
Competências digitais e inclusão socioeconómica
Além de instalar redes, Guterres frisou a importância de desenvolver competências digitais desde a educação básica até programas de formação profissional. Ele argumentou que a criação de empregos em sectores ligados à tecnologia depende da disponibilidade de mão de obra qualificada, condição indispensável para sustentar o crescimento económico a longo prazo.
Nesse sentido, o secretário-geral propôs que escolas incorporem alfabetização digital em seus currículos e que empresas promovam programas de capacitação contínua. A recomendação inclui iniciativas de apoio a grupos sub-representados, como mulheres, populações rurais e pessoas com deficiência, garantindo que todos se beneficiem das oportunidades oferecidas pela transformação digital.
Compromisso renovado no Dia Mundial das Telecomunicações
A cada 17 de maio, a UIT utiliza o Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação para destacar o papel crescente das tecnologias digitais. Na edição de 2026, a agência reiterou o apelo do secretário-geral e salientou que a conectividade universal exige metas claras, prazos definidos e mecanismos de acompanhamento.
Ao final de sua mensagem, Guterres convidou a comunidade internacional a encarar a infraestrutura digital como um investimento estratégico, capaz de impulsionar o desenvolvimento sustentável, reduzir desigualdades e fortalecer a resiliência coletiva. Para ele, somente por meio de esforço concertado será possível garantir que ninguém fique offline num mundo cada vez mais interligado.






