NOVA IORQUE, 25 de março — As Nações Unidas realizam hoje uma série de eventos para assinalar o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Tráfico Transatlântico de Escravos. Durante sessão especial da Assembleia Geral, o secretário-geral António Guterres convocou governos, instituições e cidadãos a enfrentar o legado da escravidão, promovendo igualdade e dignidade para todos.
Confrontar quatro séculos de violência e desigualdade
Ao dirigir-se aos Estados-membros, Guterres recordou que, por mais de 400 anos, milhões de africanos foram arrancados de suas comunidades, submetidos a travessias brutais e forçados ao trabalho nas Américas. Muitos não sobreviveram à viagem; os que chegaram foram privados de liberdade, direitos e identidade. Outros milhões nasceram em cativeiro, crescendo sob um sistema que negava a própria humanidade dos escravizados.
O líder da ONU sublinhou que as estruturas sociais, políticas e econômicas erguidas à custa dessa exploração persistem. “Sistemas e instituições moldados e enriquecidos pela escravidão continuam a gerar desigualdades profundas”, afirmou. Para ele, combater essas heranças exige “rejeitar a narrativa falsa da diferença racial” e a “mentira repugnante da supremacia branca”.
Guterres pediu o “desmantelamento do racismo” em todas as esferas — da internet às escolas, dos locais de trabalho à política — de modo que cada pessoa possa “prosperar com dignidade”.
Data escolhida em referência à Lei de 1807
O Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura foi estabelecido pela Assembleia Geral da ONU em 2007 e celebrado pela primeira vez em 2008. A escolha de 25 de março faz referência direta à Lei de Abolição do Comércio de Escravos, aprovada no Reino Unido em 25 de março de 1807. A legislação proibiu a negociação, compra, venda ou transporte de pessoas escravizadas a partir da costa africana. Ainda assim, a escravidão em si foi mantida por décadas, realçando, segundo a ONU, a distância entre abolir o tráfico e garantir liberdade efetiva.
Nesta edição, o tema dos eventos é “Justiça em Ação”. A organização destaca que a data não constitui apenas um momento de memória, mas um chamado a políticas que reparem injustiças históricas e ofereçam oportunidades equitativas às comunidades afrodescendentes.
Memoriais que mantêm viva a recordação
A sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, abriga desde 2015 o monumento permanente “Arca do Retorno”. Projetada pela arquiteta ganense-americana Lesley Lokko, a estrutura convida visitantes a refletir sobre as rotas do tráfico e a resistência das vítimas. No interior, um busto simbólico homenageia homens, mulheres e crianças que sofreram sob o regime escravista.
Em outras partes do mundo, memoriais cumprem função semelhante. Em Stone Town, na Tanzânia, esculturas em tamanho real lembram o antigo mercado de escravos da ilha. No Brasil, comunidades quilombolas, como Kalunga em Goiás, mantêm tradições e reforçam o vínculo entre passado e presente. Este ano, o governo brasileiro emitiu pedido formal de desculpas pelos períodos de escravidão no país, gesto citado na ONU como exemplo de reconhecimento institucional.
Resiliência e coragem das vítimas
Durante a sessão, delegações de países africanos, caribenhos e latino-americanos destacaram atos históricos de resistência, como as revoltas em navios negreiros, a formação de quilombos e os movimentos abolicionistas. Guterres classificou essa resistência como “resiliência silenciosa e corajosa”, sublinhando que, apesar da opressão, homens e mulheres escravizados preservaram culturas, línguas e religiões, influenciando a identidade de múltiplas nações.
Representantes da sociedade civil pediram que a comunidade internacional fortaleça programas educacionais sobre o tráfico transatlântico, argumentando que o desconhecimento do passado favorece a perpetuação do racismo estrutural. Defendeu-se também o avanço de medidas de reparação econômica e social para descendentes de pessoas escravizadas.
Imagem: ilustrativa
Chamado a ações concretas
Entre as recomendações apresentadas pelo secretário-geral estão:
• Revisão de currículos escolares para incluir a história da escravidão e contribuições culturais africanas.
• Fortalecimento de leis antidiscriminação e aplicação rigorosa contra crimes de ódio.
• Promoção de igualdade de oportunidades em mercados de trabalho e sistemas de justiça.
• Financiamento de iniciativas comunitárias lideradas por afrodescendentes.
• Combate à desinformação e aos discursos de ódio nas plataformas digitais.
Guterres lembrou que o racismo “não é problema de minorias”, mas obstáculo global ao desenvolvimento sustentável. Ele reforçou que a Agenda 2030, aprovada por unanimidade em 2015, só será cumprida se a inclusão racial for tratada como prioridade transversal.
Eventos paralelos e participação de jovens
A programação deste 25 de março inclui debates, exibições artísticas e painéis destinados a estudantes. Um dos destaques é a projeção de curtas-metragens produzidos por jovens cineastas sobre heranças africanas nas Américas. A iniciativa busca estimular novas gerações a investigar origens familiares e reconhecer o impacto duradouro do comércio de escravos.
Paralelamente, o Departamento de Comunicação Global da ONU lança campanha digital com testemunhos de descendentes de escravizados, disponíveis em seis idiomas. A ação pretende ampliar o alcance do debate e incentivar usuários de redes sociais a partilhar histórias de resistência comunitária.
Compromissos futuros
No encerramento da reunião da Assembleia Geral, a presidência do órgão apresentou rascunho de resolução reafirmando o compromisso dos Estados-membros com a erradicação do racismo sistêmico. O texto exorta países a integrar estratégias de desenvolvimento com políticas anti-racistas e a reportar progressos anualmente.
Delegações devem negociar detalhes do documento nas próximas semanas, com expectativa de votação antes da abertura do próximo período ordinário de sessões, em setembro. Observadores diplomáticos avaliam que o consenso dependerá da disposição dos Estados em reconhecer ligações entre discriminação contemporânea e práticas escravistas do passado.
Ao final do pronunciamento, Guterres insistiu que “honrar as vítimas significa transformar memória em ação”. Para ele, promover justiça racial não é apenas reparar feridas históricas, mas garantir que futuras gerações vivam em sociedades que valorizem a diversidade como riqueza comum.






