Voluntários em Lisboa impulsionam aprendizagem de português a 300 alunos migrantes

imagem representando a Educacao Digital Brasil.

No Agrupamento de Escolas Patrício Prazeres, em Lisboa, quase quatro em cada dez estudantes têm origem migrante. Para cerca de 300 crianças desses níveis de ensino, o domínio do português tornou-se prioridade absoluta e, todas as semanas, tutores voluntários dedicam tempo a jogos, desenhos, histórias e conversas que facilitam o caminho para a integração escolar e social.

Academia CV.pt traz apoio individualizado

A iniciativa que garante esse acompanhamento chama-se Academia CV.pt – Capacitar e Valorizar em Português, criada em 2016 em parceria com a associação Renovar a Mouraria e a Fundação Cidade de Lisboa. O projeto opera no modelo de tutorias personalizadas: cada criança sinalizada recebe orientação semanal de um voluntário, sem testes formais ou manuais rígidos. O foco recai em atividades lúdicas que estimulam a confiança, a autonomia e a prática oral da língua.

Nuno Melendez, coordenador do programa no agrupamento, explica que a barreira linguística continua a ser um dos principais obstáculos à integração plena. “A falta de fluência em português compromete o desempenho nas disciplinas, dificulta a socialização e eleva o risco de insucesso escolar”, resume. Segundo Melendez, assegurar competência no idioma local é condição para que os alunos migrantes participem em pé de igualdade na vida da escola.

As tutorias seguem uma lógica de aproximação gradual. Os voluntários propõem exercícios de escrita leve, leitura em voz alta, pequenas dramatizações e até desafios de matemática em português, sempre adaptados ao nível de cada participante. Nusrat, de 10 anos, natural do Bangladesh e residente em Portugal há três anos, diz que prefere “pintar, escrever e ler em português”, atividades que, nas sessões, se transformam em pontes para o vocabulário do quotidiano escolar.

Rede de voluntários fortalece vínculos

O corpo de tutores reúne profissionais de áreas diversas, desde engenheiros a estudantes universitários, que cedem parte do seu tempo para acompanhar um ou dois alunos. Heloísa Fuzari, uma das voluntárias, destaca que o propósito vai além da gramática. “A conexão de confiança abre espaço para que cada criança se sinta segura para errar, perguntar e experimentar a língua sem constrangimentos”, afirma.

Outro ponto assinalado pelos tutores é a repercussão emocional. “Procuro exercícios que reforcem autoestima e liberdade de expressão, pois a língua é também veículo de identidade”, relata Matilde Marques. Para Marta Guerreiro, a prova de que o método dá resultado aparece em pequenas conquistas diárias: “Quando um aluno arrisca falar na sala ou completa a primeira redação, percebemos que a semente germinou”.

Os resultados são monitorados através de questionários a professores e relatórios periódicos. As avaliações indicam progressos na participação em aula, no uso do português fora das sessões e no sentimento de pertença à comunidade escolar. Esses indicadores sustentam a continuidade do projeto e atraem novos voluntários, fator crucial para atender ao crescimento da procura.

Crescimento acelerado de alunos estrangeiros

O cenário verificado em Lisboa reflete uma tendência nacional. Dados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação revelam que existem cerca de 195 mil estudantes estrangeiros na escolaridade obrigatória em Portugal. Há dez anos, eram aproximadamente 50 mil. Entre 2018 e 2023, o número de filhos de pais estrangeiros em escolas públicas mais que duplicou, ultrapassando 140 mil. Em alguns concelhos, esses alunos já representam 30% a 40% das turmas.

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Imagem: ilustrativa

A diversidade crescente pressiona as instituições a oferecer respostas adequadas. Estudos sobre rendimento escolar mostram que discentes migrantes registam taxas superiores de reprovação, frequentemente associadas a limitações linguísticas. Nuno Melendez observa que, ao fortalecer competências de português desde cedo, as tutorias mitigam o risco de abandono e promovem equidade no acesso ao currículo nacional.

Da multiculturalidade à interculturalidade

Mais do que acomodar múltiplas culturas, o agrupamento pretende chegar a uma verdadeira convivência intercultural. O objetivo, segundo o coordenador, é que todos os estudantes se reconheçam como parte ativa da comunidade escolar. Para isso, a Academia CV.pt não se limita às sessões individuais: organiza oficinas de gastronomia, apresentação de países de origem e celebrações de datas especiais, sempre em português, reforçando o valor da diversidade linguística.

A experiência também beneficia alunos nativos. Professores relatam que a presença de colegas de diferentes nacionalidades enriquece discussões em aula e estimula a empatia. Ao mesmo tempo, notar o esforço dos recém-chegados para aprender o idioma inspira os restantes a valorizar a própria língua e a colaborar nos processos de inclusão.

Desafios e perspetivas

A expansão constante do público migrante exige recursos adicionais. Manuais adaptados, formação de professores e apoio psicológico ainda são carências apontadas pela direção do agrupamento. Apesar disso, o voluntariado mantém o projeto ativo e em crescimento. Para Melendez, a chave está em articular esforços da escola, famílias e comunidade local.

O coordenador defende que políticas públicas direcionadas possam replicar modelos semelhantes noutros agrupamentos do país. “Investir na aprendizagem do português desde a chegada impacta não só as notas, mas a vida presente e futura dessas crianças”, declara.

Enquanto novas estratégias são debatidas, as tutorias seguem a acontecer. Nusrat continua a desenhar e a ler histórias; voluntários chegam com cadernos, lápis de cor e vontade de partilhar conhecimento; e o português, ponto de partida para amizades e oportunidades, consolida-se como elo comum numa escola onde 36 nacionalidades dividem o mesmo recreio.

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