Quatro em cada dez meninas brasileiras faltam às aulas todos os meses por causa de cólicas intensas e dificuldades relacionadas ao ciclo menstrual. Entre mulheres adultas, a produtividade média cai 10,8 horas por semana. Os dados constam de uma pesquisa conduzida pelo Instituto Alana, organização da sociedade civil dedicada à defesa dos direitos da infância, que levou o tema a Brasília para discussão com representantes dos Três Poderes.
Pesquisa revela impacto escolar e laboral
O levantamento do Instituto Alana mapeou fatores que afastam meninas e mulheres de atividades escolares e profissionais. Entre eles, destacam-se dores fortes, falta de acesso a absorventes, ausência de infraestrutura sanitária adequada e constrangimento social. A situação se agrava em famílias de baixa renda e entre meninas negras, grupo em que a falta de recursos para adquirir produtos menstruais quase dobra.
Segundo o estudo, muitas jovens iniciam a menstruação antes dos 11 anos sem qualquer orientação. A carência de informação contribui para a normalização da dor e para a subnotificação em serviços de saúde. O documento aponta discrepâncias entre as queixas registradas por pacientes e o conteúdo efetivamente incluído nos prontuários, o que dificulta o desenho de políticas públicas focadas no problema.
Homens convocados a atuar contra o estigma
Durante a Conferência dos Estados Partes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, realizada em Nova Iorque, o diretor-executivo do Instituto Alana, Pedro Hartung, declarou que os homens têm responsabilidade direta na quebra de tabus que cercam a menstruação. Para o dirigente, a percepção de que o tema é “assunto apenas feminino” perpetua a ideia de algo sujo ou vergonhoso, reduz o debate público e dificulta o acesso a saneamento, acolhimento e insumos básicos.
Hartung defendeu que parlamentares e outros formuladores de políticas se informem sobre os desafios vivenciados por meninas e mulheres. Em encontro com estudantes do sexo masculino, o dirigente observou desconhecimento generalizado sobre as consequências da falta de dignidade menstrual. Conforme relatou, dialogar abertamente desde cedo pode ajudar a desnaturalizar a dor e incentivar soluções estruturantes.
Investimento de US$ 60 milhões até 2040
Para enfrentar o cenário descrito, o Instituto Alana lançou um projeto global que prevê US$ 60 milhões em ações até 2040. No Brasil, a entidade firmou parceria superior a US$ 12 milhões com o governo federal para fortalecer políticas públicas ligadas ao tema. Parte dos recursos será destinada a campanhas de conscientização, distribuição de produtos menstruais e melhoria de banheiros em escolas.
A iniciativa aposta também em mudanças culturais. A proposta inclui a inserção do conteúdo sobre saúde menstrual nas aulas do ensino fundamental, com foco em garantir que meninos e meninas recebam informação de forma igualitária. “Precisamos falar de dor e assegurar que as crianças cresçam sem sofrimento naturalizado”, resumiu Hartung.
Debate avança em esfera internacional
Além de dialogar com autoridades brasileiras, o Instituto Alana mantém cooperação com Unicef, ONU Mulheres e Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa). A parceria busca ampliar o debate em fóruns internacionais, mobilizar governos e captar novos financiamentos para projetos voltados à dignidade menstrual.
Imagem: ilustrativa
Especialistas ouvidos pela organização defendem que a menstruação deixe de ser tratada como tabu para que políticas de saúde, educação e infraestrutura contemplem as necessidades reais da população feminina. Entre as recomendações estão:
- Distribuição regular de absorventes nas escolas públicas;
- Capacitação de profissionais de saúde para registro adequado de queixas menstruais;
- Construção ou adaptação de banheiros com água corrente, recipientes para descarte e privacidade;
- Programas educativos que envolvam também meninos e homens adultos.
Foco na qualidade de vida e na produtividade
Ao justificar o investimento bilionário, o Instituto Alana argumenta que o custo social da falta de dignidade menstrual supera em muito os recursos aplicados. Faltas escolares recorrentes podem gerar evasão, impactar o desempenho acadêmico e comprometer oportunidades futuras. No mercado de trabalho, a perda de 10,8 horas semanais por mulher adulta afeta diretamente a economia e a renda familiar.
A organização sustenta que reconhecer a dor como questão de saúde pública, e não como experiência individual a ser silenciada, facilita o diagnóstico de patologias e previne complicações. A proposta de incluir educação menstrual no currículo obrigatório reforça essa linha ao equiparar o tema a outros conteúdos de biologia e cidadania.
Próximos passos
Com o plano financeiro estabelecido até 2040, o Instituto Alana trabalha agora na definição de metas anuais e indicadores de impacto. Entre os resultados esperados estão a redução de faltas escolares motivadas por cólicas severas, o aumento do número de escolas com infraestrutura adequada e a queda no índice de subnotificação em unidades de saúde.
A entidade pretende ainda ampliar o envolvimento de empresas privadas, sobretudo na cadeia de produção e distribuição de absorventes, e estimular projetos de inovação que ofereçam alternativas sustentáveis e de baixo custo.
Para Pedro Hartung, o êxito da iniciativa depende da participação ativa de todos os segmentos da sociedade, em especial dos homens. “Ouvir, aprender e agir são verbos essenciais para quem não vive esse processo fisicamente, mas tem poder de decisão em casa, na escola, no parlamento ou na gestão pública”, finalizou.





